Era 1994, eu estava no último ano do Colégio Marista, meus
pais me pressionavam sobre o vestibular mas eu queria conhecer o mundo. Enquanto
minha irmã estudava com afinco para o vestibular de Medicina e usava blusinhas
do Mickey eu usava calças jeans rasgadas e blusas de bandas de punk rock e
heavy metal. Eu vivia rodeada de amigos
intercambistas: islandeses, noruegueses, americanos, belgas, holandeses... era
muito divertido, falávamos sobre as diferenças culturais, ganhava presentes e
cartas do mundo todo (naquela época não existia internet!). Eu estava
completamente apaixonada pelo meu namorado holandês e uma das minhas melhores
amigas era belga e vivia me convidando para ir visitá-la. Eu tinha 17 anos e
achava que havia um futuro brilhante pela frente e que só dependia de mim criar
meu destino e lutar pelos meus sonhos. Eu era rebelde, anarquista politizada e
baterista de uma banda punk rock. Ou seja, achava que nada nem ninguém poderia
me deter!
Eu tinha várias paixões: tocar bateria, ouvir música e
estudar inglês. Chegava da escola e ficava horas no meu quarto fazendo os
exercícios do livro “English Grammar in Use” do Murphy, para mim era como jogar video game, a cada
acerto eu vibrava, a cada erro eu investigava para saber porquê. Mas não era só
isso, eu colecionava LPs e gostava de traduzir as letras das músicas, ensaiava
a pronúncia até ficar igualzinha do cantor, na fase da descoberta do inglês
britânico ouvia The Smiths sem parar prestando atenção na pronúncia do Morrissey
e para praticar a escrita trocava cartas com punks anarquistas da Inglaterra ,
com uma garota francesa, minha “pen-friend” (isso ainda existe? rsrsr) com quem
troquei cartas dos 14 aos 19 anos, além claro dos meus amigos intercambistas.
Aliás com eles desenvolvi a fluência através dos dias maravilhosos na praia no
Guarujá, em Santos e nas festas e barzinhos à noite. Aprender inglês para mim sempre foi uma grande
diversão, um hobby e talvez por isso eu sempre tirava 10 nas provas.
Quando contei para meu pais sobre meus planos de viajar pelo
mundo eles riram da minha cara e foram logo dizendo que não iriam patrocinar
aquela aventura. Indignada eu disse que arranjaria um emprego e iria pagar a
viagem sozinha. Me tranquei no meu quarto e comecei a arquitetar meu plano,
afinal eu tinha um trunfo: o inglês.
Sim, essa foi a primeira lição que aprendi. Suas paixões são
seus maiores aliados!
Fiz meu primeiro currículo em papel cor de rosa colando
todos os cursos de inglês que tinha feito e mencionei o Certificado da Universidade de Cambridge
e com a cara e a coragem entreguei em 3 escolas de idiomas perto da minha casa.
No dia seguinte a surpresa: as três me ligaram convidando para uma entrevista!
Após a comemoração veio o pânico: O que vou vestir? Não posso ir vestida de
punk!!!!
Foi aí que meus pais mudaram de atitude. Quando viram que eu
estava determinada e que estava disposta a trabalhar para realizar meu sonho
resolveram me apoiar. Minha mãe me levou ao shopping e meu ajudou a escolher
uma “roupa de trabalho” rsrsrs
No dia seguinte fui nas entrevistas e cheguei em casa com a
grande notícia: passei nas 3!!! Comecei a trabalhar das 8:00 às 12:00 na
primeira escola, das 14:00 às 18:00 na segunda e das 19:00 às 22:00 na
terceira. Aos sábados dava aulas das 8:00 às 18:00 e antes que percebesse
estava completamente apaixonada por ensinar inglês: meus alunos eram o máximo e o progresso deles
era visível, me enchiam de orgulho.
O tempo passou voando e 9 meses depois eu estava embarcando
para Europa, minha primeira aventura: 90 dias na Holanda, Bélgica, França e
Alemanha. Mas essa é outra estória!
Kátia Jucá é fundadora da www.teacherexpress.com.br
Adorei ler! Lembro ainda daquela Kátia punk, que era amiga da Sâmia grunge hehehe Sobre o que você escreveu, tem uma coisa que me chamou a atenção. A parte em que vc fala sobre "transformar suas paixões em aliadas". Acho que por mais óbvio e natural que esse raciocínio (ou sentimento) possa parecer, muitos tem dificuldade em realizá-lo. Mas não deveríamos ter. Isso é uma coisa a fazer a vida toda. Bjsss
ResponderExcluirPara mim voce sempre sera a Samia que escreveu uma carta enorme para o Eddie Vedder, fazia desenhos lindos e gostava de filosofar. Acho que fomos privilegiadas em ter uma adolescencia tao rica em experiencias, musica, educacao e amizades.
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